{"id":4993,"date":"2023-08-26T18:26:56","date_gmt":"2023-08-26T18:26:56","guid":{"rendered":"https:\/\/strads.com.br\/?p=4993"},"modified":"2023-08-26T22:07:09","modified_gmt":"2023-08-26T22:07:09","slug":"50-anos-de-hip-hop-523-anos-de-resistencia-indigena-o-que-hip-hop-e-cultura-indigena-tem-a-ver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/strads.com.br\/2023\/08\/26\/50-anos-de-hip-hop-523-anos-de-resistencia-indigena-o-que-hip-hop-e-cultura-indigena-tem-a-ver\/","title":{"rendered":"50 anos de hip hop, 523 anos de resist\u00eancia ind\u00edgena: O que Hip Hop e cultura ind\u00edgena tem a ver?"},"content":{"rendered":"\n

Entenda o debate que rola mundo afora sobre a contribui\u00e7\u00e3o ind\u00edgena na origem do Hip Hop e de quebra conhe\u00e7a v\u00e1rios rappers ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n

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Aku\u00e3 Patax\u00f3, Txepo Suru\u00ed e Kantupac. Fotos: Bruna Afonso, Txepo Suru\u00ed e Ana Coutinho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n

O Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas: Agosto Ind\u00edgena<\/strong>
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A fim de expandir a discuss\u00e3o e visibilidade das lutas ind\u00edgenas, os movimentos ind\u00edgenas criaram o \u201cAgosto Ind\u00edgena\u201d como forma de descentralizar o debate e decolonizar a data do dia 19 de abril, que em geral nunca contemplou o protagonismo ind\u00edgena. O m\u00eas de agosto foi escolhido por conta do dia internacional dos povos ind\u00edgenas, implantado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). O m\u00eas \u00e9 utilizado para articular programa\u00e7\u00f5es desses movimentos aut\u00f4nomos e muitas vezes \u00e9 in\u00edcio do per\u00edodo de movimenta\u00e7\u00f5es conhecido como \u201cPrimavera Ind\u00edgena\u201d.<\/p>\n\n\n\n

Em 1982 a ONU reconheceu a necessidade de uma medida que resguardasse os direitos dos povos origin\u00e1rios, e ent\u00e3o criou o Grupo de Trabalho sobre os Povos Ind\u00edgenas. Esse movimento, datado pelo 9 de agosto, tem como principais finalidades reafirmar e disseminar a situa\u00e7\u00e3o emergencial de melhoria dos direitos humanos, meio ambiente, desenvolvimento, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade dos povos ind\u00edgenas, respeitando suas culturas e individualidades. <\/p>\n\n\n\n

No ano de 2021, as deputadas Monica Seixas e Chirley Pankar\u00e1 (ind\u00edgena do povo Pankar\u00e1) criaram a Lei 17.311\/2021, que incluiu o dia 9 de agosto no calend\u00e1rio oficial do Estado de S\u00e3o Paulo.

Outras duas datas importantes para os movimentos ind\u00edgenas, por exemplo, s\u00e3o o dia 20 de janeiro, Dia Nacional da Consci\u00eancia Ind\u00edgena, escolhido por marcar o dia da morte de Aimber\u00ea, guerreiro e importante lideran\u00e7a da Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamuyas e o dia 11 de outubro, o \u00daltimo Dia de Liberdade, que marca o dia anterior da data que \u00e9 tida como Dia de Colombo.

Os 50 anos da cultura Hip Hop<\/strong>

Em 2023 o Hip Hop comemora 50 anos, celebrado no dia 11 de agosto. Existem diversas vers\u00f5es sobre seu surgimento, mas a mais popular \u00e9 a primeira festa de Hip Hop que ocorreu no bairro do Bronx, Nova Iorque, realizada por Kool Herc e Cindy Campbell. Em um contexto extremamente violento, os membros desta comunidade ressignificaram o cen\u00e1rio em que viviam atrav\u00e9s da dan\u00e7a, m\u00fasica, artes visuais, moda e estilo de vida. Em todos os registros desse movimento inicial, s\u00e3o citados como protagonistas os negros e \u201clatino-americanos\u201d de NY. <\/p>\n\n\n\n

Nova Iorque que, diga-se de passagem, tamb\u00e9m \u00e9 um territ\u00f3rio originalmente ind\u00edgena, em 1970 era habitado por estrangeiros colonizadores, estrangeiros colonizados e nativos, assim como o Brasil. <\/p>\n\n\n\n

O Bronx, \u00fatero do Hip Hop, era um local marginalizado onde a resist\u00eancia preta e \u201clatina\u201d era pesada. Estabelecido este cen\u00e1rio de sobreviv\u00eancia, onde existia uma diversidade cultural e \u00e9tnica em alian\u00e7a, podemos refletir:

Quem eram esses tais \u201clatino-americanos\u201d do Bronx, de onde vieram e sob qual contexto hist\u00f3rico?<\/strong>
Bora entender quem foi essa rapa.

Primeiro, precisamos pontuar que \u201clatino-americano\u201d \u00e9 um termo muito utilizado, mas muitas pessoas ind\u00edgenas contestam esse termo racista. Aqui esta nomenclatura foi considerada somente a fim de entender um contexto hist\u00f3rico e o vocabul\u00e1rio utilizado nesses registros, mas essa express\u00e3o e toda a problem\u00e1tica colonial da sua origem deve ser fortemente questionada e negada, n\u00e3o s\u00f3 pelo sentido subjugador que carrega, mas tamb\u00e9m pela origem literal do termo \u201cAm\u00e9rica\u201d, que \u00e9 nome de um dos colonizadores daqui (Am\u00e9rico Vesp\u00facio). Teoricamente, latino-americanos s\u00e3o os pa\u00edses que falam l\u00ednguas que prov\u00eam do latim (portugu\u00eas, espanhol e franc\u00eas), ou seja, n\u00e3o se englobam outros pa\u00edses do nosso continente que falam outras l\u00ednguas europ\u00e9ias, como holand\u00eas e ingl\u00eas. Sendo assim, \u201clatino-americano\u201d abarcada muita gente mas essa generaliza\u00e7\u00e3o a n\u00edvel continental (com raras exce\u00e7\u00f5es que confirmam a regra), parte de uma ideia racista e colonizadora. \u201cAbya Yala\u201d \u00e9 o nome origin\u00e1rio do continente americano adotado pela maioria do movimento ind\u00edgena.

Al\u00e9m dos nativos origin\u00e1rios do territ\u00f3rio dos EUA, com a coloniza\u00e7\u00e3o da \u201cAm\u00e9rica do Norte\u201d, houve muita imigra\u00e7\u00e3o. O maior contingente de imigra\u00e7\u00e3o era de mexicanos, o fluxo imigrat\u00f3rio da fronteira imposta entre EUA e M\u00e9xico era intenso, apesar de problem\u00e1tico e violento e, at\u00e9 hoje boa parte da popula\u00e7\u00e3o dos EUA \u00e9 composta por esses \u201clatinos\u201d do M\u00e9xico, que vale lembrar, \u00e9 um dos pa\u00edses com maior popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no mundo. Outra grande parcela desses \u201clatinos\u201d, eram de Porto Rico, que  tamb\u00e9m \u00e9 um territ\u00f3rio ind\u00edgena. Procure conhecer o movimento dos \u201cnuyoricanos”, porto-riquenhos que foram pe\u00e7a chave para o Breaking.<\/p>\n\n\n\n

Bom, o ponto todo aqui \u00e9 que esses \u201clatinos\u201d s\u00e3o, muitas vezes, ind\u00edgenas. <\/strong>Se estamos falando sobre resist\u00eancia, ativismo e anti racismo, \u00e9 preciso treinar o racioc\u00ednio para que o ponto de partida de qualquer an\u00e1lise sobre movimentos culturais nos nossos territ\u00f3rios n\u00e3o se descole desse ch\u00e3o, da hist\u00f3ria desse lugar, dessas pessoas.
<\/strong>Considerando isto, vale questionar:
Ser\u00e1 que houve contribui\u00e7\u00e3o ind\u00edgena nos prim\u00f3rdios do movimento Hip Hop? <\/p>\n\n\n\n

E ainda, como era a resist\u00eancia ind\u00edgena norte-americana na \u00e9poca do surgimento do Hip Hop, para al\u00e9m desses imigrantes \u201clatinos\u201d de Nova Iorque?<\/p>\n\n\n\n

\u00c9, dificilmente teremos tantos registros concretos dessa rela\u00e7\u00e3o, pois foi intenso o investimento para apagar as contribui\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas ao longo da hist\u00f3ria. Inclusive, vale ressaltar que a ideia aqui n\u00e3o \u00e9 disputar protagonismo nessa narrativa e nem alimentar uma competitividade entre pretos e ind\u00edgenas, mas sim exercitar a reflex\u00e3o sobre o apagamento ind\u00edgena em todos os movimentos e territ\u00f3rios, o que chama-se de \u201cetnoc\u00eddio\u201d e at\u00e9 vem ao caso lembrar do \u201cepistemic\u00eddio\u201d tamb\u00e9m. <\/p>\n\n\n\n

Se liga nesses trechos de pesquisas sobre isso:<\/strong>
\u201cSe \u00e9 verdade que os v\u00e1rios relatos apontam para o mesmo contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico, s\u00f3 parcialmente podemos atribuir aos jovens afro-americanos residentes nesses locais o papel preponderante na forma\u00e7\u00e3o do Hip Hop. Por um lado, porque, dada a diversidade \u00e9tnica de zonas como o Sul do Bronx, seria sempre de considerar a hip\u00f3tese de outras minorias \u00e9tnicas poderem ter tido um papel na g\u00e9nese da cultura Hip Hop. Por outro lado, porque, de facto, para al\u00e9m da influ\u00eancia afro-americana, encontramos nos relatos sobre as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es do Hip Hop refer\u00eancias \u00e0 presen\u00e7a de jovens de origem latina ou ‘hisp\u00e2nica’. Esta omiss\u00e3o tem sido interpretada n\u00e3o apenas como uma imprecis\u00e3o, mas como uma tentativa expl\u00edcita de minorar ou excluir a presen\u00e7a latina da hist\u00f3ria do Hip Hop.\u201d
Jos\u00e9 Alberto Sim\u00f5es, Universidade Nova de Lisboa, 2013 – \u201cEntre percursos e discursos identit\u00e1rios: etnicidade, classe e g\u00e9nero na cultura hip-hop\u201d<\/sup><\/sub><\/strong> \/\/\/ LEIA MAIS SOBRE ISSO CLICANDO AQUI <\/strong><\/a>
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\u201cComo tem sido bem documentado, os latinos dos EUA t\u00eam sido os principais contribuintes para a cultura hip-hop desde seu in\u00edcio no South Bronx na d\u00e9cada de 1970, quando eram principalmente os jovens porto-riquenhos e nuyoricanos que criavam estilos de dan\u00e7a de rua que passaram a ser conhecidos como \u201cb-boying\u201d ou \u201cbreaking\u201d. O papel cont\u00ednuo dos hip-hoppers descendentes do Caribe da Costa Leste continua a receber aten\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas a influ\u00eancia dos mexicanos-americanos no hip-hop permanece pouco explorada.\u201d
Amanda Martinez-Morrison, Universidade Sonoma State – \u201cBlack and Tan Realities: Chicanos in the Borderlands of the Hip-Hop Nation\u201c<\/strong> <\/sup>\/\/\/<\/sub>
LEIA MAIS SOBRE ISSO CLICANDO AQUI <\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n

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Souto Mc, Wescritor e Lyryca. Fotos: Isa Hansen Katupyryb
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Pindorama: S\u00e3o Bento, marco para o Hip Hop e para a coloniza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena<\/strong>
Vindo pro Brasil, assim como muitos esquecem, embranquecem, folclorizam ou at\u00e9 mesmo sabotam a origem ou influ\u00eancia ind\u00edgena em toda a cultura nacional, por exemplo como acontece com a Festa Junina, o Samba, a Capoeira e outros tantos elementos da alimenta\u00e7\u00e3o, espiritualidade, arte, l\u00edngua e modo de viver \u201cbrasileiros\u201d, boa parte da popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se esquece da exist\u00eancia dos povos ind\u00edgenas origin\u00e1rios de S\u00e3o Paulo.
Ou seja, quando o Hip Hop chega ao Brasil, h\u00e1 40 anos, o cen\u00e1rio desses povos era de resist\u00eancia h\u00e1 s\u00e9culos contra a coloniza\u00e7\u00e3o de Piratininga (S\u00e3o Paulo).

O que poucos sabem, tamb\u00e9m, \u00e9 que a famosa S\u00e3o Bento, ber\u00e7o do Hip Hop no Brasil, \u00e9 marco da viol\u00eancia ind\u00edgena.
A regi\u00e3o da S\u00e3o Bento \u00e9 um dos lugares mais marcantes para a hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil. L\u00e1, antes da invas\u00e3o, era literalmente territ\u00f3rio ocupado por ind\u00edgenas e hoje temos o desgosto de observar o monumento \u201cGl\u00f3ria Imortal dos Fundadores de SP\u201d, constru\u00eddo em 1925. No P\u00e1teo do Col\u00e9gio, considerado o \u201cmarco zero\u201d da cidade de S\u00e3o Paulo, foi constru\u00edda a primeira escola jesu\u00edtica para \u201ccatequizar\u201d ind\u00edgenas.

Depois desse rol\u00ea pelo tempo e por Abya Yala, chegando em Pindorama 2023, sabendo agora de todo o contexto ind\u00edgena brasileiro e americano, entendemos que a presen\u00e7a ind\u00edgena nos centros urbanos sempre existiu, pois como dizemos, n\u00e3o \u00e9 o ind\u00edgena que est\u00e1 em contexto urbano e sim a cidade que est\u00e1 em territ\u00f3rio ind\u00edgena. \u00c9ramos milh\u00f5es antes da invas\u00e3o e continuamos sendo milh\u00f5es subnotificados e invisibilizados. Sempre estivemos e ainda estamos em todos os lugares e temos todas as cores e caras, usamos todas as roupas, ouvimos, dan\u00e7amos e cantamos todas as m\u00fasicas!<\/p>\n\n\n\n

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Cida Arip\u00f3ria, Jason Tup\u00e3, Ka\u00ea, Kandu Puri, Nativos Mc’s, Wer\u00e1 Mc e S\u00e9 da Rua. Fotos: Grazi Praia, Gigio e Mlk de Mel.
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Conflu\u00eancia:<\/strong> 4 elementos, muitas culturas<\/strong>
Ao observarmos alguns dos pilares do Hip Hop, como o breaking, o graffiti e o rap, podemos refletir sobre as possibilidades de influ\u00eancias de manifesta\u00e7\u00f5es culturais realizadas pelos povos ind\u00edgenas de diversos locais das “Am\u00e9ricas”. Os ind\u00edgenas da \u201cAm\u00e9rica do Norte\u201d, por exemplo, possuem dentro de sua diversidade cultural passos de dan\u00e7a ritual\u00edsticos que assemelham-se aos passos de breaking, sem contar os j\u00e1 citados nuyoricanos. O Muralismo Mexicano, por sua vez, tornou-se uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica ic\u00f4nica no M\u00e9xico em 1920, fato que mais uma vez coloca os \u201clatinos\u201d em cena nas semelhan\u00e7as com os elementos primordiais do Hip Hop. J\u00e1 o rap, al\u00e9m de sofrer a influ\u00eancia da multiculturalidade que estava por acontecer naqueles per\u00edodo, ou seja, a influ\u00eancia musical de diversos movimentos, nos faz refletir tamb\u00e9m sobre  as tradi\u00e7\u00f5es da oralidade, presente em povos origin\u00e1rios de todo o mundo, inclusive de \u00c1frica e Abya Yala, essa sonoridade ritual\u00edstica h\u00e1 centenas de anos \u00e9 base cultural de c\u00e2nticos sagrados, como por exemplo o taasu no Senegal. <\/p>\n\n\n\n

Esses s\u00e3o alguns pontos de conflu\u00eancia origin\u00e1ria preta e ind\u00edgena que se encontram na s\u00edntese do que veio a ser o Hip Hop, bagagem cultural que pode ter influenciado direta ou indiretamente seu surgimento. Para al\u00e9m dos 4 elementos, podemos observar outras express\u00f5es que encontramos no movimento Hip Hop que tamb\u00e9m s\u00e3o relacionados a culturas ind\u00edgenas “Americanas”, como por exemplo o uso do grillz e dos dreadlocks.

Se liga na dan\u00e7a do Supaman, rapper ind\u00edgena do povo Aps\u00e1alooke<\/p>\n\n\n\n

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