{"id":3667,"date":"2022-06-15T15:12:14","date_gmt":"2022-06-15T15:12:14","guid":{"rendered":"https:\/\/straditerra.com.br\/?p=3667"},"modified":"2022-06-15T15:12:14","modified_gmt":"2022-06-15T15:12:14","slug":"a-permissao-para-experimentar-em-sobre-flores-facas-e-sombras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/strads.com.br\/2022\/06\/15\/a-permissao-para-experimentar-em-sobre-flores-facas-e-sombras\/","title":{"rendered":"A permiss\u00e3o para experimentar em Sobre Flores, Facas e Sombras"},"content":{"rendered":"\n

Por, Maria Sucar<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n

\u201cO trabalho do cinema ou de qualquer outra forma de arte n\u00e3o \u00e9 de traduzir mensagens escondidas da alma inconsciente em arte, mas de experimentar com os efeitos que os aparatos t\u00e9cnicos contempor\u00e2neos t\u00eam em nervos, mentes ou almas<\/em>\u201d – Maya Deren<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Apesar de sua forte constru\u00e7\u00e3o de pontes entre o cinema e a dan\u00e7a e seu esp\u00edrito vanguardista como mulher no cinema surrealista, um dos maiores legados que Maya Deren nos deixou enquanto facilitadora de narrativas foi a permiss\u00e3o para a experimenta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n

Seu primeiro filme, Meshes Of The Afternoon<\/strong> <\/em>(1943) passou seus primeiros anos de vida sem uma trilha sonora, sendo focado em uma constru\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica e na experimenta\u00e7\u00e3o de recursos t\u00e9cnicos como a c\u00e2mera e o filme 16mm. O que em um primeiro momento pode soar como neglig\u00eancia se justifica quando reconhecemos seu trabalho como extremamente processual, esses possuem in\u00edcio, meio, mas n\u00e3o um fim. Ela mesma em muitos momentos descreveu suas obras como \u201cnunca conclu\u00eddas, mas apenas abandonadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n

E s\u00e3o justamente as no\u00e7\u00f5es de abandono que aqui nos interessam: o movimento de permitir-se esquecer \u00e9 o que nos possibilita lembrar. Em Sobre Flores, Facas e Sombras<\/em><\/strong> (2022), Spuri<\/strong> aceita o convite para a experimenta\u00e7\u00e3o iniciado pela cineasta nos anos 40 e reativa seu primeiro filme (que agora encontra-se em dom\u00ednio p\u00fablico) ao entregar uma roupagem sonora nova, fazendo uma ponte entre per\u00edodos da arte e suas manifesta\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n

\"\"<\/figure>\n\n\n\n

Contando com beats de Davzera, Eloy Pol\u00eamico, Miranda, Olx e Eixo<\/strong>, a narrativa j\u00e1 existente \u00e9 complementada, mas tamb\u00e9m \u00e9 reconstru\u00edda, criando uma concomit\u00e2ncia entre a visualidade de 1943 com a sonoridade de 2022, o que evidencia o sucesso da n\u00e3o conclus\u00e3o que Deren<\/strong> tanto buscou construir em suas obras e a permissividade para a constru\u00e7\u00e3o de novos sentidos \u00e0 medida que novas tecnologias e tend\u00eancias culturais surgem. <\/p>\n\n\n\n

O som por si s\u00f3 \u00e9 uma parte muito pouco percebida na frui\u00e7\u00e3o audiovisual, sendo incorporada como elemento visual e dependendo quase inteiramente da constru\u00e7\u00e3o pictorial. Nossa rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o favorecida pela visualidade pode ser denunciada pela primeira vers\u00e3o do filme, como contrapartida, Spuri<\/strong> preenche essa lacuna, retoma aquilo que nasce como provoca\u00e7\u00e3o e nos prova de uma vez por todas a import\u00e2ncia do som para comunicar o que se deseja.<\/p>\n\n\n\n

O ouvido, diferente dos olhos, n\u00e3o possui p\u00e1lpebras.<\/strong> O som preenche o espa\u00e7o seja ele f\u00edsico ou narrativo e \u00e9 trabalhando com essa ideia que conseguimos criar novos sentidos a partir de sons diferentes. Se apropriar dessa vantagem para trazer novos sons \u00e1 velhas imagens e, dessa forma, permitir novos sentidos ao que j\u00e1 existe \u00e9 de uma sacada espetacular, que apresenta respeito n\u00e3o s\u00f3 a arte que j\u00e1 tivemos, mas tamb\u00e9m a arte que estamos construindo.<\/p>\n\n\n\n

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