{"id":1744,"date":"2021-10-13T00:15:29","date_gmt":"2021-10-13T00:15:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.alexbrunodesign.com\/?p=1744"},"modified":"2021-10-17T01:13:17","modified_gmt":"2021-10-17T01:13:17","slug":"matheus-coringa-cria-luz-na-escuridao-dos-seus-loops-abissais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/strads.com.br\/2021\/10\/13\/matheus-coringa-cria-luz-na-escuridao-dos-seus-loops-abissais\/","title":{"rendered":"Matheus Coringa cria luz na escurid\u00e3o dos seus \u201cLoops Abissais\u201d"},"content":{"rendered":"\n

Por Gustavo Silva<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Calmo tipo Godzilla, Matheus Coringa<\/strong> lan\u00e7ou o seu segundo \u00e1lbum de est\u00fadio \u201cLoops Abissais\u201d<\/strong>, com dez faixas autorais depois de um per\u00edodo de pausa nas cria\u00e7\u00f5es do artista.<\/p>\n\n\n\n

O projeto surgiu da inquieta\u00e7\u00e3o do artista diante da atual situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m da cena em que est\u00e1 inserido. \u201cLoops Abissais\u201d traz um mergulho em si e na escurid\u00e3o, fazendo refer\u00eancia \u00e0s criaturas abissais que vivem na zona do oceano onde a luz do Sol n\u00e3o chega. O \u00e1lbum convida o espectador a mergulhar junto e contemplar os conflitos, as sombras, a escurid\u00e3o e a anarquia como parte do processo.<\/p>\n\n\n\n

Despertando para o mergulho nas Zonas Abissais<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Trocamos uma ideia com o Coringa sobre esse novo trabalho e sua tem\u00e1tica, trazendo como destaque as Zonas Abissais, \u00e1reas profundas do oceano onde a luz do Sol n\u00e3o chega, e l\u00e1 as criaturas trabalham com a luminosidade de outra forma, muitas vezes produzindo a sua pr\u00f3pria luz. Nos \u201cLoops Abissais\u201d, Coringa aceita encarar a vida na escurid\u00e3o, mas prop\u00f5e a possibilidade de ser sua pr\u00f3pria luz, tendo a arte como fonte da sua bioluminesc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n

\u201cPuramente a minha Arte e a forma como ela se propaga e \u00e9 devorada\u2026 essa \u00e9 a minha luz, minha for\u00e7a. Enquanto eu me mantiver vivo respirando e fazendo arte, eu sei que vou produzir minha pr\u00f3pria luz independente do qu\u00e3o profunda a nossa atmosfera se encontra\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Passando um per\u00edodo em pausa nas cria\u00e7\u00f5es e agora chegando com este novo trabalho, Coringa se viu motivado por diversas inquieta\u00e7\u00f5es diante da atual situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m da cena, que despertaram o artista a sair da pausa e propor esse mergulho profundo nos \u201cLoops Abissais\u201d trazendo os holofotes para o underground.<\/p>\n\n\n\n

\u201cA estagna\u00e7\u00e3o coletiva que a \u2018cena\u2019 nacional se encontra, tanto nas camadas mais vistas quanto nas camadas mais \u2018abissais\u2019, rs, foram minha motiva\u00e7\u00e3o. Acredito que a pandemia dificultou muito nosso processo de desenvolvimento art\u00edstico e ORIGINAL como um todo. Nos afastamos muito, incluindo eu, dessa proje\u00e7\u00e3o gigantesca que o Rap nacional tomou, e acaba que temos que fortalecer novamente colunas que foram enfraquecidas como o cen\u00e1rio underground ou experimental como muitos conhecem\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n

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Criaturas das profundezas gerando luz<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Al\u00e9m da busca por fortalecer o underground do qual faz parte, Coringa exibe neste novo trabalho um grande amadurecimento desde o seu primeiro \u00e1lbum \u201cNictofilia\u201d<\/strong>, com um forte processo de evolu\u00e7\u00e3o tanto na sua escrita quanto na vis\u00e3o dessa atmosfera de escurid\u00e3o que contextualiza seus trabalhos.<\/p>\n\n\n\n

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\u201cForam 5 anos de diferen\u00e7a desde o lan\u00e7amento do primeiro \u00e1lbum, ainda um menino kkkk. Queria mostrar que a escurid\u00e3o nunca me assustou, pelo contr\u00e1rio eu sentia conforto nela, por isso \u2018Nictofilia\u2019 soa mais rebelde, mais afrontoso, porque de fato era, mas ele deixou um breu significativo na cabe\u00e7a dos meus ouvintes, pois mesmo ap\u00f3s tanto tempo poucos conseguiram digerir de fato, por qu\u00ea?! Porque eu s\u00f3 falei sobre o conforto, faltou o desconforto na escurid\u00e3o, a origem da nossa escurid\u00e3o, a nossa rea\u00e7\u00e3o ao se aprofundar cada vez mais na escurid\u00e3o. Todo o processo por tr\u00e1s do que me fez sentir nictofilia eu s\u00f3 mostrei em \u2018Loops Abissais\u2019, de uma forma mais madura, mais exposta, mais fria por\u00e9m mais emp\u00e1tica. Da empatia surgiu a necessidade de eu tentar ajudar criaturas das profundezas a criarem luz tamb\u00e9m, independente da onde viemos, todos n\u00f3s temos potencial pra fabricar a nossa pr\u00f3pria luz e como eu sinto que consigo fazer isso, quero que meus ouvintes consigam tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n\n\n\n

Para nos ajudar a enxergar melhor no escuro, Coringa convocou um time de peso para criar a ambienta\u00e7\u00e3o deste trabalho, um elemento de destaque de \u201cLoops Abissais\u201d, que carrega com for\u00e7a nas produ\u00e7\u00f5es de Noshugah, iiaanco, Campoy e DJ Tadela a atmosfera desse mergulho profundo. Esse tamb\u00e9m foi o primeiro \u00e1lbum que Coringa n\u00e3o fez nenhum beat, agregando maior valor \u00e0 escolha e conex\u00e3o com esses produtores que aprofundaram t\u00e3o bem a sua vibe soturna junto \u00e0 tem\u00e1tica da escurid\u00e3o abissal.<\/p>\n\n\n\n

\u201cMano, eu fechei com o time perfeito, todos eles em algum momento eu j\u00e1 trombei pessoalmente. O iiaancoo, o Tadela eu sempre trombei em est\u00fadio ent\u00e3o como eu sou bem quadrad\u00e3o no meu gosto pra beat, essa parada darkside a galera j\u00e1 sabe que \u00e9 comigo, n\u00e3o teve tanta dificuldade. O Noshugah e o Campoy me deram a atmosfera perfeita pra eu me aprofundar na parte l\u00edrica, principalmente o Noshugah que anotou 6 produ\u00e7\u00f5es no disco. Como eu gravei o disco com ele e o Campoy – que deixou um beat tamb\u00e9m tirando a mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o do disco – pela S.H.E.I.L.A Records, eu convivi muito tempo com os dois, e eles captavam cada vez mais a ess\u00eancia crua da minha arte. Nada mais justo que essa sensa\u00e7\u00e3o se propague junto ao trabalho, tanto que \u2018Calmotipogodzilla\u2019 foi um beat que o Noshugah fez de rol\u00ea na madrugada e eu escrevi na hora. No outro dia fomos pro est\u00fadio e gravamos, no timing perfeito. Acho que a parada \u00e9 trampar juntos, fazer todo esse processo de estudo art\u00edstico lado a lado que d\u00e1 esse resultado aut\u00eantico e visceral.\u201d<\/p>\n\n\n\n

Al\u00e9m dos produtores, as participa\u00e7\u00f5es dos MCs vieram fortes apesar de estarem em apenas duas faixas. Coringa trouxe grandes destaques do underground com nabru<\/strong>, uma das maiores revela\u00e7\u00f5es do contexto recente da cena nacional, e Sergio Estranho<\/strong> e El Mandarim<\/strong>, nomes que v\u00eam fazendo um corre forte junto ao Rancho Mont Gomer<\/strong>. Esses MCs trouxeram uma conex\u00e3o forte com a vibe e a tem\u00e1tica do \u00e1lbum, sem destoar essa ambienta\u00e7\u00e3o em nenhum momento.<\/p>\n\n\n\n

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\u201cEssa conex\u00e3o rolou de forma experimental e pura. O Sergio Estranho e o El Mandarim que s\u00e3o irm\u00e3os foram um dos primeiros manos que eu fiquei hospedado quando eu vim pra SP pela primeira vez, tenho um carinho absurdo pelos dois e admira\u00e7\u00e3o artistica pra caralho. Pra mim Morlockz<\/strong> foi um dos maiores grupos do Rap nacional e muitos nunca escutaram, kkkkkk. Eu me identifico muito com eles e com a forma deles pensarem e agirem perante as tend\u00eancias da cena atual. A nabru eu conheci num rol\u00ea com eles, kkkkkkk, em S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m. A gente j\u00e1 tava ligado um no outro, no rol\u00ea a gente se falou e tal, mas no dia ela n\u00e3o sabia que eu era o Coringa e eu n\u00e3o sabia que ela era a nabru. Depois come\u00e7amos a conversar melhor, fui acompanhando os trampos dela cada vez mais e sempre me identificando pela abordagem crua e essa vontade \u00fanica de continuar se expressando e se reinventando a todo custo, totalmente experimental. Quando eu pensei nos feats do disco, eu s\u00f3 conseguia pensar nesses tr\u00eas nomes, eu n\u00e3o convidei mais ningu\u00e9m.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n

\u201cA nabru tinha acabado de chegar em SP, eu j\u00e1 tava gravando o disco. Escutei o beat do Campoy, fiz um refr\u00e3o e pensei nela. S\u00f3 mandei o refr\u00e3o e perguntei se ela topava participar, mas que eu j\u00e1 tava gravando, kkkkkk. No dia da grava\u00e7\u00e3o do est\u00fadio ela levou o caderninho e me perguntou se eu tinha escrito algo, eu disse que s\u00f3 tinha o refr\u00e3o. Ela terminou os versos na hora, o beat era todo dela, eu at\u00e9 falei pro Campoy: \u2018Deixa ela rimar o quanto ela quiser. Ela cansou, n\u00f3s bota o refr\u00e3o e eu sigo nos versos\u2019. Porque eu sinto uma liberdade po\u00e9tica na nabru muito foda, e quis dar toda liberdade pra ela amassar at\u00e9 onde ela quisesse, e foi o que aconteceu. Eu n\u00e3o sei se foi viagem minha, mas logo depois dela gravar, ouvindo o som, ela meio que lacrimejou ouvindo como ficou. N\u00e3o perguntei na hora, porque sei l\u00e1, vai que n\u00e3o era e eu tava moscando, mas se foi, eu sei que ela deu valor pro trampo da mesma forma que eu dei, e todo esse processo foi importante pra mim e pra geral que participou do disco.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n

Arte profunda<\/strong><\/p>\n\n\n\n

O contexto de pandemia certamente instigou Coringa a trazer um novo trabalho para a rua, a compartilhar vis\u00f5es e sentimentos desse momento, mas tamb\u00e9m \u00e9 um cen\u00e1rio que impossibilita v\u00e1rias atua\u00e7\u00f5es como artista para a divulga\u00e7\u00e3o e prolifera\u00e7\u00e3o desse trampo.<\/p>\n\n\n\n

\u201cTudo que t\u00e1 acontecendo at\u00e9 ent\u00e3o foi de maneira org\u00e2nica, as p\u00e1ginas, os views, cita\u00e7\u00f5es foi tudo de maneira org\u00e2nica e eu t\u00f4 muito feliz com o resultado e cr\u00edticas de quem escutou. Sei que muita gente n\u00e3o vai ouvir porque n\u00e3o chegamos nas camadas mais atrativas ou vamos passar despercebido, mas como um bom artista experimental que joga com o futuro ao seu lado sempre, eu sei que essa obra tem seu valor e ela s\u00f3 vai crescer \u00e0 medida que regamos nossa curiosidade pelo desconhecido. Ainda assim, sei que vai ser um grande desafio propagar esse trampo, contudo n\u00e3o consigo me desanimar com n\u00fameros, sei que a nossa arte \u00e9 bem mais profunda que um sistema bin\u00e1rio de 0 e 1.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n

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Pra fechar o nosso papo, busquei saber do Coringa quais as influ\u00eancias, artistas e sons, que t\u00eam batido mais forte nos fones dele, e inspirado as cria\u00e7\u00f5es nesse momento.<\/p>\n\n\n\n

\u201cSinceramente n\u00e3o venho escutando nomes t\u00e3o convencionais, ando at\u00e9 um pouco desligado sobre o que t\u00e1 rolando e acontecendo aqui ou nos Estados Unidos. Por\u00e9m, eu tive um contato muito massa com a cena de Boombap alem\u00e3 e descobri uma ala muito foda que deu inveja pela consolida\u00e7\u00e3o de nomes nesse segmento. Nomes como Ulysse<\/strong>, KwamE<\/strong>, Buddha<\/strong>, SSIO<\/strong>, Argonautiks<\/strong> e grande parte dos rappers que consolidaram n\u00e3o s\u00f3 o Boombap l\u00e1, mas o Rap alem\u00e3o em si, s\u00e3o imigrantes ou filhos de imigrantes, o que consolida uma cena bem forte culturalmente tamb\u00e9m. Vou deixar uma playlist do Spotify que eu tenho acompanhado bastante sobre essa cena: <\/em>https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/3zl4Xh7jlynnRKjtMJiwsG<\/u><\/em><\/a>. Obrigado pela conversa e o espa\u00e7o fam\u00edlia, foi uma honra trocar essa ideia.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n

N\u00f3s agradecemos muito o Coringa pela for\u00e7a, por esse papo e pelos trabalhos lan\u00e7ados. O \u00e1lbum \u201cLoops Abissais\u201d est\u00e1 dispon\u00edvel em todas as plataformas de streaming.<\/p>\n\n\n\n

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