{"id":1642,"date":"2021-10-12T23:13:48","date_gmt":"2021-10-12T23:13:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.alexbrunodesign.com\/?p=1642"},"modified":"2021-10-12T23:13:48","modified_gmt":"2021-10-12T23:13:48","slug":"meu-coracao-e-meu-veleiro-e-meu-guia-e-o-oceano-interior-de-dro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/strads.com.br\/2021\/10\/12\/meu-coracao-e-meu-veleiro-e-meu-guia-e-o-oceano-interior-de-dro\/","title":{"rendered":"\u201cMeu Cora\u00e7\u00e3o \u00e9 Meu Veleiro e meu Guia\u201d e o oceano interior de Dro"},"content":{"rendered":"\n
por Gabriel Santos<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n Gosto de dizer que existem duas maneiras de fazer arte: olhando para fora, e olhando para dentro. Essas formas, \u00e9 claro, se complementam e se misturam, mas quase sempre uma predomina sobre a outra. Nesta brincadeira de palavras o \u00e1lbum rec\u00e9m sa\u00eddo do rapper Dro<\/strong>, \u201cMeu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 meu Veleiro e meu Guia<\/strong>\u201d, seria um belo exemplar do segundo tipo: um relato introspectivo e pessoal.<\/p>\n\n\n\n Dro<\/strong> \u00e9 de S\u00e3o Paulo<\/strong>, tem 26 anos e faz m\u00fasica desde os 12. O seu primeiro EP solo no rap, \u201cDeserto de Danakil<\/strong>\u201d, de 2018, \u00e9 um outro trabalho bem interessante e merece ser ouvido. \u00c9 um pouco mais sombrio que este, mas j\u00e1 imprime algumas caracter\u00edsticas que j\u00e1 estariam presentes aqui, que \u00e9 um flow mais cantado, e o uso de instrumentos org\u00e2nicos.<\/p>\n\n\n\n Em \u201cMeu Cora\u00e7\u00e3o \u00e9 meu Veleiro e meu Guia<\/strong>\u201d, h\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 uma continuidade dessas caracter\u00edsticas, mas um aprofundamento. Na primeira m\u00fasica, \u201cComo Se Fosse um Filme<\/strong>\u201d, teclados, sintetizadores, baterias, flautas, viol\u00f5es, refr\u00f5es cantados<\/em> se imp\u00f5em em um ritmo sempre limpo e jamais agressivo, e que dar\u00e1 o tom de todo o \u00e1lbum.<\/p>\n\n\n\n A segunda faixa, \u201cSe eu Soubesse Cantar<\/strong>\u201d, se tornou a minha favorita e j\u00e1 come\u00e7a com um refr\u00e3o cantado, e bem marcante. E \u00e9 a que mais se aproxima de uma sonoridade padr\u00e3o do <\/em><\/strong>trap<\/em>, pelo uso dos 808<\/em>, e demonstra muito bem a sensibilidade particular do Dro<\/strong>, sempre embalada por uma vis\u00e3o reta, n\u00e3o-rom\u00e2ntica dos fatos, mas permeada por uma suave ironia:<\/p>\n\n\n\n \u201cse eu soubesse cantar fazia uma daquelas para voc\u00ea que faz malandro chorar\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n A terceira m\u00fasica se trata de uma lovesong<\/strong> em duas partes: \u201cPerguntei pra Deus \/ Qualquer Esquina Desse Universo<\/strong>\u201d. Perguntei pra Deus<\/strong> \u00e9 embalada por um belo som de piano<\/em> e marcada por uma batida de meia-lua<\/em>, e \u00e9 a que merece destaque – gostaria at\u00e9 que tivesse sido mais longa. Na virada para \u201cQualquer Esquina<\/strong>\u201d, o ritmo se acelera, os sintetizadores<\/em> tomam de conta.<\/p>\n\n\n\n A faixa que d\u00e1 nome ao \u00e1lbum come\u00e7a come\u00e7a com um sampler<\/em> da Whitney Houston <\/em>que d\u00e1 um ar retr\u00f4 e que se mistura muito bem com um refr\u00e3o mais puxado para o pop. A mensagem \u00e9 de otimismo, a m\u00fasica soa como um mantra e parece amarrar tudo o que vem sendo mostrado no \u00e1lbum: o cora\u00e7\u00e3o como um guia, cujo caminho para o qual ele nos leva nem sempre \u00e9 o mais macio. Seguir o cora\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes d\u00e1 merda, nem sempre estamos confiantes ao faz\u00ea-lo, e muitas vezes agimos errado, mesmo sendo visceralmente honestos – e essa \u00e9 a beleza.<\/p>\n\n\n\n \u201cTudo no seu tempo e ele vai chegar\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n A pr\u00f3xima faixa, Opala Negra<\/strong>, tem o ritmo fortemente ancorado em uma frase de flauta<\/em>, e a l\u00edrica \u00e9 preenchida com refer\u00eancias ao filme J\u00f3ias Brutas<\/em>, do Adam Sandler<\/em>. O verso de Victor Xam\u00e3<\/strong> \u00e9 marcante, como sempre, e que conversa muito bem com o esp\u00edrito da obra; MAND’NAH<\/strong>, por sua vez, adiciona uma textura muito interessante com a sua voz e compartilha o refr\u00e3o com o manauara.<\/p>\n\n\n\n \u201cUma Meia de Cada Par \/ Uma Rosa de Cada Cor<\/strong>\u201d \u00e9 a mais melanc\u00f3lica do \u00e1lbum, puxada para o lo-fi<\/em>, a m\u00fasica parece falar de solid\u00e3o com versos como \u201cningu\u00e9m vai me ver partir \/ se eu n\u00e3o bater a porta<\/em>\u201d, mas mesmo ela nos deixa com uma mensagem otimista \u201ceu n\u00e3o vou mais desandar<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n O \u00e1lbum se fecha com \u201cFeito Jimi<\/strong>\u201d, um rap<\/em> mais cl\u00e1ssico, de baterias <\/em>marcadas e parece uma viagem no tempo com um toque de nostalgia e cheia de refer\u00eancias pessoais, sob o olhar de algu\u00e9m que olha para tr\u00e1s e parece avaliar o saldo da vida at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n Meu Cora\u00e7\u00e3o \u00e9 Meu Veleiro e meu Guia<\/strong> \u00e9 um relato introspectivo da trajet\u00f3ria de Dro<\/strong>, mas que pela profundidade e honestidade, \u00e9 capaz de conversar com as viv\u00eancias e os sentimentos de cada um de n\u00f3s, como s\u00f3 uma boa arte daquele tipo que olha para dentro<\/em> \u00e9 capaz de fazer.<\/p>\n\n\n\n Al\u00e9m de emocionalmente engajante, o \u00e1lbum mostra o apuro art\u00edstico do autor, que demonstrou estar sempre consciente das texturas que procurou imprimir nos ritmos e melogias, e que realizou praticamente todos os beats<\/em> a partir de sons instrumentais org\u00e2nicos<\/em> e tocados por ele. Um feito not\u00e1vel em um \u00e1lbum de rap<\/em>.<\/p>\n\n\n\n Eu tive a oportunidade de trocar uma ideia<\/strong> com o pr\u00f3prio Dro<\/strong>, que me falou sobre seu processo criativo, sua hist\u00f3ria com a m\u00fasica, e as refer\u00eancias contidas no \u00e1lbum. Confira a entrevista logo abaixo!<\/p>\n\n\n\n Como foi o processo de idealiza\u00e7\u00e3o do seu trabalho? Ouvindo o disco, senti uma certa coes\u00e3o interna, ent\u00e3o me surgiu essa pergunta: o conceito “Meu Cora\u00e7\u00e3o \u00e9 meu Veleiro e meu Guia” voc\u00ea criou antes das m\u00fasicas, ou foi o inverso, e surgiu de algo que voc\u00ea j\u00e1 tinha?<\/strong><\/p>\n\n\n\n Na verdade, o nome veio quando eu estava escrevendo o meu verso da m\u00fasica t\u00edtulo. Ia ser um som com um mano do RJ, Dc Calmob, mas por motivos pessoais ele n\u00e3o p\u00f4de continuar com o trabalho, ent\u00e3o ele sugeriu que eu finalizasse a m\u00fasica sozinho, que estava muito boa.<\/em><\/p>\n\n\n\n Pois bem, ao escrever o trecho \u201ctudo no seu tempo ele vai chegar \/ tudo no seu tempo e no balan\u00e7o que deus pede \/ meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 meu veleiro e meu guia\u201d. Quando esse verso saiu, foi meio sem querer, como uma linha qualquer. Mas depois que finalizei a letra, parei um pouco nessa frase, vi como ela soava e como era forte e pensei \u201cPorra, isso d\u00e1 o tema de um trampo!\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n E o melhor, percebi como tudo que eu vinha escrevendo ultimamente casava com a ideia dessa frase. Ouvi de novo, e pensei: \u201c\u00e9 isso!\u201d. E estava escolhido o nome do trampo.<\/em><\/p>\n\n\n\n Voc\u00ea tem uma rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica que vai al\u00e9m do mic e do rap, certo? Fala um pouco sobre ela.<\/strong><\/p>\n\n\n\n Desde que me conhe\u00e7o por gente, eu chapo em m\u00fasica em um n\u00edvel muito intenso. Meus pais n\u00e3o tocam instrumento, mas em casa desde que eu era pequeno, rolava muita m\u00fasica. Muita m\u00fasica e pouca TV. Meu pai colocava Bob Marley, Tit\u00e3s, Raimundos, Cidade Negra, Paralamas do Sucesso, Djavan, Tim Maia, e essa foi minha forma\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n Mas, mesmo com toda essa imers\u00e3o no mundo da m\u00fasica, s\u00f3 fui come\u00e7ar a tocar mesmo em 2005, quando tinha 12 anos. Mas desde ent\u00e3o nunca parei, j\u00e1 me aventurei em banda de rock, banda de reggae, j\u00e1 toquei muita guitarra e muito baixo.<\/em><\/p>\n\n\n\n A produ\u00e7\u00e3o no rap veio s\u00f3 l\u00e1 pra 2010, 2011. Ent\u00e3o, 5 anos antes de come\u00e7ar a fazer hip hop, eu j\u00e1 chapava em instrumento e tocava muito. Meu brinquedo era a m\u00fasica.<\/em><\/p>\n\n\n\n Ouvia muito Red Hot, System of a Down, Rage Against the Machine quando moleque. J\u00e1 curtia rap, como Racionais, MvBill Ndee Naldinho, mas ainda n\u00e3o era o meu estilo principal.<\/em><\/p>\n\n\n\n Meu contato real com o rap come\u00e7ou com o \u00e1lbum do Racionais, O Raio X do Brasil. Olha a hist\u00f3ria: Meu pai morou no Jap\u00e3o nos anos 90, foi l\u00e1 pra trampar como pe\u00e3o mesmo, junto com v\u00e1rios outros brasileiros que estavam emigrando naquela \u00e9poca. Eu tinha uma liga\u00e7\u00e3o bem forte com ele, e a gente curtia muito ouvir Raimundos juntos, ent\u00e3o um certo dia pedi de presente de anivers\u00e1rio para a minha m\u00e3e um CD do Raimundos. Acontece que ela n\u00e3o conhecia raimundos, e acabou voltando com um CD do Racionais por engano (hahaha), e era justamente o Raio X do Brasil. E acabou que eu chapei mais no Racionais do que eu chapava no Raimundos, e esse CD, mais especificamente a m\u00fasica Fim de Semana no Parque, foi o meu grande clique no rap.<\/em><\/p>\n\n\n\n S\u00f3 depois de mais velho percebi que no fim todo esse desenrolar na m\u00fasica contribuiu para formar o artista que eu sou hoje. Justamente algu\u00e9m que procura trazer a ess\u00eancia do rap mas pega emprestado esse leque de estilos que serviu para a minha forma\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n Voc\u00ea disse que toca desde os 12 anos, como foi sua rela\u00e7\u00e3o com os instrumentais na cria\u00e7\u00e3o desse trampo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n Todos os instrumentais foram produzidos por mim. Nesse CD eu usei pouqu\u00edssimo sample.<\/em><\/p>\n\n\n\n Sempre tive o desejo de fazer sons mais cantados. Apesar de eu dominar instrumento de corda e j\u00e1 ter cantado em banda, sempre tive uma certa vontade de ser o vocalista. Eu tinha um grupo chamado zerando o saldo, lan\u00e7amos um album de 2017 chamado Destinos Distintos, e esse cd era totalmente baseado na cultura do sample, colagens, tipos de frases, sample de jazz, soul, altera\u00e7\u00f5es de pitch estilo Kanye West. Bem rap\u00e3o mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n Mas quando comecei a carreira solo, quis fazer composi\u00e7\u00f5es que dessem para eu realmente cantar. O sampler \u00e9 algo meio incontrol\u00e1vel, dif\u00edcil de domar, ent\u00e3o decidi que iria fazer as linhas de melodia do meu jeito para poder deixar minha voz da melhor forma. O resultado \u00e9 que esse ep \u00e9, digamos 97% org\u00e2nico e tocado por mim.<\/em><\/p>\n\n\n\n Ao compor o \u00e1lbum, eu quis atingir uma sonoridade equivalente \u00e0 de uma banda. Pra isso usei muito piano, muito Teclado Rhodes, (um timbre que sou apaixonado), muito baixo org\u00e2nico (voc\u00ea realmente pode tocar as m\u00fasicas deste CD no baixo).<\/em><\/p>\n\n\n\n A verdade \u00e9 que eu fiz esse \u00e1lbum pensando como se houvesse uma banda atr\u00e1s de mim, mesmo. Se voc\u00ea ouvir os sons, vai sentir elementos familiares de uma banda. Por isso muita gente se agrada se sente confort\u00e1vel de ouvir esse EP, s\u00e3o timbres que estamos acostumados a ouvir a vida toda.<\/em><\/p>\n\n\n\n Mas ainda assim, existem alguns samplers <\/strong>no disco, \u00e9 poss\u00edvel contar nos dedos. Para quem curte ir atr\u00e1s das refer\u00eancias, eu posso listar eles:<\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n Bacana, e como \u00e9 (ou como foi nesse trampo) seu processo criativo nessa rela\u00e7\u00e3o composi\u00e7\u00e3o vs. instrumental? Vc costuma surgir com a letra antes e construir o instrumental em cima, o inverso, ou n\u00e3o tem muito crit\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n Bem, eu sempre, sempre, sempre, fa\u00e7o o instrumental antes da letra. Eu gosto de construir um instrumental primeiro, pq a partir dele que eu vou construir o ritmo e a melodia da minha letra.<\/em><\/p>\n\n\n\n Na hora de criar, eu considero a minha voz como um elemento do beat, tanto na quest\u00e3o r\u00edtmica, que s\u00e3o as s\u00edlabas, como na quest\u00e3o mel\u00f3dica, que \u00e9 o pr\u00f3prio flow.<\/em><\/p>\n\n\n\n Ent\u00e3o eu ponho todos os instrumentos antes para depois deitar minha voz. E na maioria das vezes come\u00e7o pela bateria. Eu acredito que n\u00e3o adianta a m\u00fasica ter um sampler irado e uma melodia \u00f3tima no instrumental se o ritmo n\u00e3o prestar. Vejo o ritmo como o alicerce, a estrutura, as paredes da m\u00fasica. O sample, a melodia e os instrumentos s\u00e3o como os m\u00f3veis, a pintura, a ilumina\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n Se eu pudesse dar uma ordem para o meu processo criativo, seria o seguinte: percuss\u00e3o -> instrumento -> composi\u00e7\u00e3o de l\u00edrica -> levada -> melodia.<\/em><\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n<\/figure>\n\n\n\n
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