{"id":1624,"date":"2021-10-12T19:16:04","date_gmt":"2021-10-12T19:16:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.alexbrunodesign.com\/?p=1624"},"modified":"2021-10-12T19:16:04","modified_gmt":"2021-10-12T19:16:04","slug":"isa-hansen-fala-sobre-arte-e-diversidade-em-entrevista-a-straditerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/strads.com.br\/2021\/10\/12\/isa-hansen-fala-sobre-arte-e-diversidade-em-entrevista-a-straditerra\/","title":{"rendered":"Isa Hansen fala sobre arte e diversidade em entrevista \u00e0 Straditerra"},"content":{"rendered":"\n

por Gustavo Silva<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n

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Todo o processo hist\u00f3rico do Brasil direcionou a sociedade para um contexto no qual nunca houve muita margem para se ter um debate s\u00e9rio sobre cultura e arte (ao menos no cen\u00e1rio de produ\u00e7\u00f5es nacionais), ou at\u00e9 sobre a import\u00e2ncia transformadora da arte em diversas atmosferas do sujeito e da sociedade.<\/p>\n\n\n\n

A cultura e a arte no Brasil nunca estiveram na lista de prioridade de qualquer governo, e sempre dependeram do sacrif\u00edcio daquelas pessoas que encaram arte como puls\u00e3o de vida, e dedicam sua energia e tempo para algo muito maior do que meros trabalhos audiovisuais com o fim de entreter.<\/p>\n\n\n\n

Esse cen\u00e1rio excludente trouxe ao fazer art\u00edstico, e ao meio cultural, car\u00e1ter de ferramenta capaz de perpetuar vozes de pessoas constantemente silenciadas, em prol da sua sobreviv\u00eancia, auto-afirma\u00e7\u00e3o, busca por respeito, espa\u00e7o e reconhecimento, em um mercado onde est\u00e3o enraizadas influ\u00eancias e pensamentos puramente pautados em ideais de segrega\u00e7\u00e3o, elitismo, preconceito e desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n

Para falar de uma forma mais concreta sobre essa realidade, a Straditerra<\/strong> entrevistou a cineasta, fot\u00f3grafa, videomaker, editora, artista visual, desenhista <\/em><\/strong>e escritora<\/em> Isa Hansen<\/strong>. Formada em Cinema e Audiovisual, Isa tem um portf\u00f3lio extenso de grandes trabalhos, inclusive junto \u00e0 cultura do Hip Hop, expressando com caracter\u00edsticas muito pr\u00f3prias sua arte como plataforma de representatividade, sobreviv\u00eancia e revolu\u00e7\u00e3o, e falou um pouco com a gente sobre suas viv\u00eancias e vis\u00f5es acerca da arte em nosso contexto atual.<\/p>\n\n\n\n

Straditerra:<\/em> Para come\u00e7ar a falar do seu trabalho, eu queria entender a sua vis\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de um videoclipe, de um trabalho visual bem executado, para as produ\u00e7\u00f5es de rap e para o trabalho desenvolvido pelo artista. Porque tanto com mc\u2019s que est\u00e3o come\u00e7ando, que t\u00eam acesso a poucos recursos audiovisuais, quanto com artistas j\u00e1 bem estabelecidos, a gente consegue ver muitas vezes uma padroniza\u00e7\u00e3o muito simpl\u00f3ria nas produ\u00e7\u00f5es visuais dos trabalhos. Como voc\u00ea v\u00ea a import\u00e2ncia desse cuidado com os trabalhos visuais no rap?<\/strong><\/p>\n\n\n\n

A import\u00e2ncia de um trampo bem executado \u00e9 total, agora, independente dessa import\u00e2ncia, a chave aqui \u00e9: acesso. O acesso \u00e9 uma ponte tanto como recursos financeiros quanto como informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, \u00e9 tudo uma quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de um intelecto, n\u00e3o s\u00f3 de investimento monet\u00e1rio.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Eu diria que criatividade e identidade s\u00e3o os principais pontos em qualquer arte, porque s\u00e3o coisas que formam intrinsecamente a sua vida e a\u00ed voc\u00ea as elabora conforme as viv\u00eancias. Essas duas coisas te oferecem um espectro de possibilidades, s\u00e3o pot\u00eancias, e cada um progride nesse caminho dentro da sua subjetividade. Eu consigo julgar se algo me apetece no momento, mas n\u00e3o se algo \u00e9 bom. O simples muitas vezes funciona e \u00e9 bem executado, inclusive \u00e0s vezes menos \u00e9 mais, mas o simples n\u00e3o \u00e9 o simplista, e a\u00ed entramos em outra quest\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Ent\u00e3o independente do qu\u00e3o importante seja um trampo bem executado, na pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil. N\u00e3o posso dizer \u201cvoc\u00ea tem q fazer isso ou aquilo\u201d, quando sei como \u00e9 na pr\u00e1tica ser um artista pobre. O cuidado com a qualidade t\u00e9cnica do seu trabalho penso que seja o m\u00ednimo que qualquer artista tem que ter, na medida do poss\u00edvel, mas precisamos entender o que \u00e9 essa qualidade circunstancial tamb\u00e9m. E aqui n\u00e3o falo sobre resolu\u00e7\u00e3o e nem sobre ter o melhor equipamento, falo sobre qualidade criativa, o desenvolvimento da sua identidade, linguagem, conceito e sentimento. Precisamos parar de associar qualidade a necessariamente resolu\u00e7\u00e3o, t\u00e9cnica e tamanho da produ\u00e7\u00e3o. Qualidade n\u00e3o quer dizer 4k, drone, est\u00fadio e atores famosos.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Quando falamos de artistas bem estabelecidos, qualquer qualidade pode ser mais f\u00e1cil de acessar por quest\u00f5es financeiras, mas antes de mais nada precisamos entender de onde vem essa pessoa, quais as refer\u00eancias de vida dela, independente de onde ela chegou, como isso se formou. Dizer que pra ter um bom trabalho \u00e9 s\u00f3 ter dinheiro \u00e9 resumir arte \u00e0 produto e resumir todo o nosso trabalho a essa qualidade t\u00e9cnica e n\u00e3o \u00e9 bem assim, infelizmente. Tamb\u00e9m depende do tipo de constru\u00e7\u00e3o cultural, do meio que ele t\u00e1 inserido, n\u00e3o adianta s\u00f3 recurso financeiro, \u00e9 a famosa \u201cpobreza de esp\u00edrito\u201d, rs.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Quando falamos sobre esse assunto, somos obrigados a ligar tudo diretamente com o hist\u00f3rico de coloniza\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds e a situa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e cultura e com o fato de que grande parte do rap vem da periferia. N\u00e3o d\u00e1 pra falar de acesso sem cair nos desdobramentos das opress\u00f5es estruturais. Esse conhecimento t\u00e9cnico e repert\u00f3rio audiovisual \u00e9 bem restrito, \u00e9 um mercado elitista, machista e racista.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Quando relacionamos isso ao rap, precisamos ter o cuidado de entender esse contexto, o porqu\u00ea desses mc\u2019s n\u00e3o estarem tendo esse cuidado \u201cideal\u201d com seus trabalhos. N\u00e3o posso dizer que uma pessoa que n\u00e3o conhe\u00e7o n\u00e3o tem um trabalho bem executado ou que ela n\u00e3o tem cuidado com seu trabalho, porque \u00e0s vezes ela t\u00e1 fazendo o melhor q ela pode dentro da sua realidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Se eu acho que os trabalhos visuais do rap tem um potencial muito grande e que poderiam ser muito mais elaborados, se acho que falta criatividade, sentimento nas express\u00f5es e entendimento de como aplicar identidade e linguagem? Sim. Mas tamb\u00e9m sei o porqu\u00ea isso acontece.<\/em><\/p>\n\n\n\n

O videoclipe \u00e9 muito importante pra dar consist\u00eancia a uma carreira e a imagem do artista, vivemos numa cultura onde a imagem e internet s\u00e3o determinantes pra um artista, l\u00f3gico que \u00e9 importante. Eu gostaria de ver esses mc\u2019s bem estabelecidos dando espa\u00e7o pra muitos artistas \u201cpequenos\u201d das artes visuais que s\u00e3o enormes em identidade, discurso e linguagem. Que s\u00e3o hoje \u201cpequenos\u201d, como um dia esses mc\u2019s j\u00e1 foram.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Vejo que a maioria dos mc\u2019s se alia a produtoras onde a equipe \u00e9 totalmente elitizada, branca e cis masculina e entendo que os melhores equipamentos, o melhor estudo e a autonomia t\u00e9cnica t\u00e1 com essas pessoas, mas se n\u00e3o tem uma dire\u00e7\u00e3o de qualidade, essas pessoas v\u00e3o aplicar nos trampos suas ideias que s\u00e3o, consequentemente, elitistas, racistas e machistas, constru\u00eddas assistindo hollywood e visitando a Disney, rs. E eu j\u00e1 cansei de ouvir amigos dizendo \u201cPorra, fiz um trampo com o fulano, munido de drone e 4k e o cara n\u00e3o conseguiu captar a ess\u00eancia do bagulho, o sentimento\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n

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Rola uma pressa acomodada por parte dos mc\u2019s e digo isso com o maior respeito e compreens\u00e3o, mas acho que quando a gente se prop\u00f5e a ser aRtivista, precisamos pensar nisso como um todo, n\u00e3o s\u00f3 na letra, mas tamb\u00e9m na equipe, nas rela\u00e7\u00f5es, em tudo. \u00c9 preciso entender o objetivo do seu trabalho visual pra n\u00e3o cair no ponto onde o visual \u00e9 apenas um plano de fundo pra sua m\u00fasica. Se voc\u00ea entender o audiovisual como uma ilustra\u00e7\u00e3o, uma materializa\u00e7\u00e3o da sua m\u00fasica e da sua identidade, uma extens\u00e3o do seu corpo-arte, um diferente corpo de uma mesma express\u00e3o, a\u00ed voc\u00ea entende a import\u00e2ncia disso carregar uma identidade. Se voc\u00ea fizer um clipe gen\u00e9rico, pra mim voc\u00ea est\u00e1 dizendo que v\u00ea sua m\u00fasica como gen\u00e9rica. Pop \u00e9 uma coisa, gen\u00e9rico \u00e9 outra. Absolutamente nada contra coisas f\u00e1ceis de se digerir, assimilar, uma linguagem acess\u00edvel e objetiva, n\u00e3o \u00e9 sobre complicar a fita. Se voc\u00ea preza pelo seu discurso, identidade, ess\u00eancia e se voc\u00ea quer p\u00f4r na rua um trampo de cora\u00e7\u00e3o, \u00fanico, \u00e9 preciso olhar com profundidade pra tudo isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Com a internet, redes e os smartphones, o audiovisual se tornou mais acess\u00edvel, o que \u00e9 \u00f3timo, por\u00e9m s\u00e3o ondas que v\u00eam e nos resta surfar, mas precisamos entender onde estamos ref\u00e9ns disso e do nosso p\u00fablico. Essa busca por visualiza\u00e7\u00e3o e essa pressa em atingir muitas pessoas de uma vez \u00e9 perigosa. Se voc\u00ea atinge muitas pessoas muito r\u00e1pido, pode ser porque sua arte est\u00e1 muito mastigada, o que n\u00e3o \u00e9 ruim desde que voc\u00ea n\u00e3o esteja se tornando gen\u00e9rico. \u00c9 preciso observar e escolher onde deixamos nossa ess\u00eancia de lado pra entrar num molde comercial porque precisamos vender e sobreviver, estamos metendo o louco de viver de arte. Se estiv\u00e9ssemos falando de arte por arte, eu n\u00e3o estaria rodeando tanto pra responder, mas se trata de hip hop e ele \u00e9 acima de tudo responsabilidade e compromisso com a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/em><\/p>\n\n\n\n

A import\u00e2ncia, mais uma vez, \u00e9 indiscut\u00edvel, mas desde que voc\u00ea entenda que por bem executado eu n\u00e3o quero dizer caro nem complicado e sim criativo em linguagem, verdadeiro em identidade e minucioso.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Muitos trampos, como voc\u00ea mesmo disse, muito caros e de pessoas j\u00e1 muito bem estabelecidas s\u00e3o completamente gen\u00e9ricos, previs\u00edveis, simplistas e desrespeitosos com os artistas envolvidos. Ainda estamos nos entendendo com redes, plataformas e streamings, ainda mais com isso mudando todo dia. Ainda estamos entendendo onde o videoclipe entra nisso. Antes t\u00ednhamos os canais que passavam clipes na TV, mas n\u00e3o \u00e9 mais isso. A finalidade do videoclipe precisa ser analisada.<\/em><\/p>\n\n\n\n

Duma perspectiva de dire\u00e7\u00e3o criativa, e n\u00e3o de engajamento e marketing, n\u00e3o \u00e9 essencial lan\u00e7ar clipe em todos os seus sons. Existem diversas maneiras de se construir uma identidade visual foda sem precisar investir uma vida em uma puta produ\u00e7\u00e3o visual toda vez, buscar isso \u00e9 uma cilada. Ainda estamos entendendo esse mercado da internet, por mais que j\u00e1 estejamos usando. Daqui a um tempo YouTube e Spotify j\u00e1 ser\u00e3o obsoletos. N\u00e3o julgo quem faz trampos expressos e gen\u00e9ricos, acho que vai do seu sonho de carreira mesmo, do legado.<\/em><\/p>\n\n\n\n

O que posso te dizer \u00e9 que o cuidado com a identidade visual \u00e9 um pilar da consist\u00eancia de uma carreira art\u00edstica e dentro disso \u00e9 necess\u00e1rio entender o que \u00e9 qualidade pra voc\u00ea e como voc\u00ea quer sustentar essa identidade. Videoclipe \u00e9 apenas um galho desse tronco, e como o papo aqui n\u00e3o \u00e9 sobre como hypar em tr\u00eas passos, te digo que \u00e9 preciso olhar pro real sustento, a ra\u00edz.<\/em><\/p>\n\n\n\n

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